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Maioria dos empreendedores abre empresa por necessidade e não por vocação

Pesquisa concluída no mês passado pela PUC de Minas Gerais que joga novas luzes sobre a discussão do empreendedorismo no Brasil.

Bem-sucedida no negócio próprio, a advogada Sara Bernardes jamais havia imaginado criar e gerenciar uma empresa, quando foi surpreendida por aquelas reviravoltas enfrentadas por toda família. Aos 15 anos, o sonho de cursar direito e se especializar na área foi atropelado pela busca de trabalho, depois de assistir às dificuldades que o pai enfrentou num processo de falência, e aos 21 ela iniciou a carreira de empreendedora numa loja de roupas de grife. Há seis anos, criou e dirige a Escola Superior de Justiça, em Belo Horizonte, que oferece cursos na área jurídíca no exterior. A necessidade imposta a Sara, mais que a oportunidade, ainda representa a principal porta de entrada do brasileiro no mundo dos negócios, segundo pesquisa concluída no mês passado pela PUC de Minas Gerais, resultado que joga novas luzes sobre a discussão do empreendedorismo no Brasil.

O trabalho teve como base as histórias de 100 empreendedores da indústria de Belo Horizonte colhidas pela equipe da professora Gláucia Maria Vasconcellos Vale, do Programa de Pós-Graduação em Administração da PUC Minas. Desse universo, 70% pretendiam seguir carreiras convencionais em empresas privadas ou no setor público, antes de decidirem montar o negócio próprio. “Não foi por um desejo original que essas pessoas se tornaram empreendedores. Originalmente, elas desejavam ter um bom emprego, algo que socialmente é mais valorizado no Brasil”, afirma Gláucia Vale.

Outra conclusão reveladora é que o empreendedorismo está longe de significar um fenômeno de elite, assumindo a condição de fator de mobilidade social. A pesquisa da PUC Minas constatou que os empreendedores das classes de menor poder aquisitivo esbarraram no problema do Desemprego e queriam aumentar a renda. Desse grupo, 72% abriram a empresa como ferramenta para elevar os rendimentos, ante 58% dos entrevistados que pertenciam ao estrato socioeconômico médio; 29% estavam desempregados e 36% precisaram dar suporte a alguém da família.

“O empreendedorismo tem cheiro de povo. Por meio dele, muitas pessoas remanescentes de estratos inferiores da população, mas dotadas de força de vontade e espírito de iniciativa, conseguiram ascensão social”, diz a professora Gláucia Vale. Um terço dos empreendedores ouvidos apresentou ascensão social, ou seja, houve uma conquista de padrões de vida melhores do que os dos pais. Essa mobilidade alcançou 100% no estrato mais baixo dos entrevistados, em que foram encontradas referências de ocupações dos pais como serventes de pedreiros, pintores, garçons e vigias.

Fica a suposição de que as conclusões da pesquisa podem ser extensivas a outros setores. Segundo Gláucia Vale, que tem se dedicado a estudos sobre o tema do empreendedorismo, a indústria é um setor fortemente representativo do empreendedorismo no Brasil. A maior parte da amostra – 98% do total – é de empreendimentos menores, com menos de 99 empregados.

O tema é polêmico. Levantamento recente do Sebrae mostra que o caminho do empreender por necessidade tem se estreitado no Brasil, diferentemente do impulso dado pelas oportunidades de fazer negócio. A cada três negócios abertos, dois refletem as chances que surgem para o empreendedor, conforme a pesquisa Global Entrepreneurship Monitor (GEM), que mede o nível de empreendedorismo em 54 nações há mais de 10 anos e no país é realizada pelo Sebrae e o Instituto Brasileiro da Qualidade e Produtividade.

A iniciativa e a ousadia são dois dos fatores essenciais ao empreendedorismo que estão em algum grau associados à cultura do brasileiro, na avaliação do professor Marcus Quintella, coordenador do MBA em empreendedorismo e desenvolvimento de novos negócios da Fundação Getulio Vargas/IBS. “Muita gente com essas características é empreendedora sem se dar conta disso”, afirma. Para Sara Bernardes, a percepção das habilidades para dirigir o negócio próprio foram descobertas depois da necessidade de ajudar a família e do trabalho na coordenação de uma equipe à época formada de estudantes de direito. “O empreendedor é um otimista que vive no futuro, transformando crises em oportunidades, desenvolvendo ideias ou reeditando algo que foi feito com sucesso e, assim, influencia as pessoas a seu redor”, afirma.