Em: Notícias CDLNITEROI

Serviços ganham espaço

O consumo da nova classe média, que cresceu fortemente nos últimos anos, mudou. Levantamento do Instituto Data Popular, realizado a pedido do GLOBO, mostra que 65% dos gastos dessa parcela da população são destinados a serviços, enquanto 35%, a produtos. Uma inversão de prioridades, na comparação com as despesas de uma década atrás. Em 2004, 63% do consumo da classe média eram direcionados a produtos e 37%, a serviços. Depois de satisfazer a sua aspiração por bens, essa população — que tem renda per capita de até R$ 1.184 por mês — passou a gastar a maior parte de sua renda com serviços. Porém, boa parte do aumento salarial conquistado nos últimos anos é gasto com serviços essenciais.

Entre os serviços que passaram a abocanhar mais do orçamento da classe C nos últimos dez anos, estão educação e saúde. A primeira consome 2% dos gastos totais dessas pessoas e a segunda representa uma fatia de 3% das despesas. O dinheiro é gasto em itens que vão desde o pagamento de planos de saúde, exames de laboratório e cirurgias até mensalidades de clínicas.

O presidente da Federação Nacional de Saúde Suplementar (FenaSaúde), Marcio Coriolano, diz que, mesmo com o baixo crescimento econômico, o setor de planos de saúde continua avançando e atribuiu esse fenômeno à mudança do perfil de consumo no país. Ele reconhece que, com a maior demanda pelos serviços de saúde, o preço dos convênios pode ser subir.

O diretor do Data Popular, Renato Meirelles, explicou que, em algumas ocasiões, o gasto com serviços essenciais chega a absorver todo o aumento de renda da classe C. Ele diz que muitas vezes a população considera os serviços públicos ineficientes:

— Gastar mais com serviços significa maior desenvolvimento da população, porque, quanto maior a renda, mais se gasta com serviços.

A corretora de seguros Maysa Pereira, 22 anos, passou a ter acesso aos serviços de saúde quando começou a trabalhar. Mensalmente, a empresa desconta R$ 88 de seu salário por causa do convênio.

— Eu tenho usado mais o plano odontológico, para exames de rotina. Mas é confortável ter o plano de saúde também para o caso de necessidade — disse.

INFLAÇÃO DE SERVIÇOS ENTRE 8,5% E 9% AO ANO 

Na avaliação de especialistas, embora o Brasil esteja se aproximando do padrão de consumo de países desenvolvidos, essa procura maior por serviços acabou levando a um efeito perverso: mais inflação nos últimos anos. Levantamento do economista Fábio Bentes, da Confederação Nacional do Comércio (CNC), mostra que, desde 2004, a inflação de serviços tem ficado acima da taxa de produtos, com exceção do ano de 2008. Nos últimos três anos, a diferença foi mais significativa, com o índice dos serviços entre 8,5% e 9% ao ano e o dos produtos, entre 4,5% e 6% ao ano:

— Em princípio, isso não seria um problema. A questão é que a produtividade não acompanha o aumento real do salário. Com mais dinheiro no bolso e a produtividade crescendo menos, há uma oferta menor de serviços diante da demanda crescente.

Segundo Bentes, é um problema estrutural que torna a inflação mais resistente. Os instrumentos para combater a subida de preços, como juros mais altos, são insuficientes para conter os preços.

Para o ministro Marcelo Neri, da Secretaria de Assuntos Extraordinários, o encarecimento dos serviços tem dois lados. Ele destaca que boa parte dessa nova classe C trabalha na área de serviços, e, portanto, sua renda acompanha essa aceleração inflacionária. Assim, ela gasta mais, mas pode também lucrar mais com a prestação de serviços.

— Mas o trabalhador da indústria, de fato, está penalizado, porque não existe para ele tanto espaço para o aumento da renda.

A costureira Maria Gorete Matias, de 42 anos, foi uma que escolheu o setor de serviços. Deixou o trabalho numa indústria de camisetas e uniformes, numa cidade a 40 quilômetros de Brasília, para oferecer reparos em um ateliê no Centro da capital. Deixar a indústria e migrar para o setor de serviços foi também uma maneira de proteger seu poder de compra, uma vez que o preço dos serviços vem subindo com a demanda:

— Mudei de serviço porque trabalhava de dia para comprar comida à noite. Não tinha como sobreviver com aquilo. Era escravidão.

VIAGENS SÃO 2% DAS DESPESAS

Os dados do Instituto Data Popular mostram que a classe média destina 31% de sua renda à reforma e à manutenção de serviços no domicílio. Nesse recorte, estão incluídos TV a cabo, internet e serviços para a casa em geral. Em seguida, vêm os gastos com alimentação em restaurantes, bares e lanchonetes: 5%. Outras despesas, com uma fatia de 19% da renda, incluem cabeleireiros, manicures, sapateiros, lavanderias, contratação de empregados domésticos, aluguel de aparelhos, Imposto de Renda, tarifas bancárias e seguros de vida, entre outros. Viagens e entretenimento passaram a ocupar, cada um, parcela de 2% das despesas. 

A cabeleireira Valéria Cristina Dias Mota, de 49 anos, retrata bem esse movimento. Depois de 15 anos pagando aluguel, ela acabou de comprar uma casa e já planeja reformar o imóvel no ano que vem. Valéria mora com duas netas, com idades entre 6 e 8 anos.

— Tenho TV a cabo e internet. As meninas têm tablet, computador, internet e impressora. — disse Valéria que mantém a casa com a pensão do marido falecido e com o serviço de cabeleireira que presta em casa.

O brasileiro da classe média também gasta mais com a compra de automóvel particular do que com transporte público. Uma parcela de 5% da renda da classe média é destinada ao veículo próprio, enquanto outra de 3% é usada com transporte público. Boa parte do gasto com transporte público é bancada por empregadores por meio de vale-transporte.

 

Fonte: O Globo